O apelo financeiro da soja sustentável
- Luiza Bruscato

- 3 de out. de 2024
- 5 min de leitura
Globo Rural

Boas práticas no campo elevam a renda, afirma Luiza Bruscato, primeira mulher a presidir a Associação Internacional de Soja Responsável
As práticas sustentáveis estão no centro das discussões sobre a produção de alimentos no Brasil e no mundo. Na cadeia da soja, muitos desses debates terão agora a liderança de Luiza Bruscato, a nova presidente da Associação Internacional de Soja Responsável (RTRS, na sigla em inglês). Aos 36 anos, ela é a primeira mulher a comandar a entidade fundada em Zurique, na Suíça, a primeira brasileira e também a pessoa mais jovem a ocupar o cargo.
Em sua primeira entrevista desde que assumiu o comando da organização, em janeiro, Luiza conta à Globo Rural como as certificações de boas práticas no cultivo do grão têm crescido e como a preocupação com a sustentabilidade já é, de fato, um propulsor de receita para os produtores rurais.
Globo Rural: Qual foi a evolução do mercado de soja responsável nos últimos anos?
Luiza Bruscato: A produção de soja sustentável certificada pela RTRS tem tido um crescimento notável tanto no mundo quanto no Brasil. Em 2021, o volume certificado globalmente foi de 4,6 milhões de toneladas, do qual o Brasil respondeu por 3,6 milhões de toneladas. No ano seguinte, o volume subiu para 7 milhões de toneladas certificadas no mundo, sendo 5,9 milhões de toneladas produzidas no Brasil. A resposta positiva dos produtores de soja à certificação e às práticas sustentáveis se potencializa quando há um sinal claro de demanda do mercado. Isso indica um potencial muito otimista de crescimento, com a sensibilização e a procura por produtos sustentáveis continuando a aumentar. Tanto no caso da soja quanto no do milho, um dos principais consumidores é a indústria de nutrição animal.
GR: Como a nova lei da União Europeia, que impedirá a compra de produtos ligados ao desmatamento, pode influenciar o setor?
Luiza: Essa legislação tem um impacto direto sobre o mercado de soja responsável e das outras seis commodities que estão na lista. No caso da soja, a certificação RTRS já exige desmatamento zero desde 2009, então nossa certificação já garante soja livre de desmatamento com uma data bastante anterior à prevista por essa lei (2020), o que significa que toda a nossa soja certificada poderá atender esses compradores. Só que a lei da UE acaba puxando para baixo a régua que a gente tem hoje. Com isso, nosso primeiro desafio é não perder mercado para produtores que pararam de desmatar entre 2009 e 2020 e que estarão em conformidade com a lei da UE, disputando espaço com a soja certificada pela RTRS.
GR: O volume de soja certificada que existe hoje no Brasil é suficiente para atender à demanda europeia?
Luiza: Se considerarmos os volumes certificados disponíveis anualmente e o ritmo da procura europeia por soja certificada RTRS, os volumes disponíveis são suficientes para atender à procura. Atualmente, o Brasil produz mais de 6 milhões de toneladas certificadas RTRS por ano, e a Europa compra 5 milhões de toneladas desse total. Essa realidade sugere que os volumes certificados disponíveis estão alinhados com a demanda europeia por soja certificada RTRS. Vale lembrar que a demanda europeia total por soja no ano é de 34 milhões de toneladas. O Brasil responde por 13 milhões de toneladas desse volume.
"A sustentabilidade passa por aspectos ambientais e sociais, além dos econômicos, mas a gente precisa lembrar que todo o trabalho é feito por pessoas e para pessoas"
— Luiza Bruscato
GR: Para o produtor rural, qual a vantagem de se ter uma soja certificada como responsável?
Luiza: A primeira grande vantagem é que ele consegue acessar mercados mais sofisticados, que pagam melhor. E a segunda grande vantagem é que ele consegue vender não somente a soja física, mas também os créditos dessa soja sustentável. Temos hoje um mercado bastante interessante, em que as empresas compensam sua pegada de carbono com a compra desse crédito.
GR: O que o agricultor precisa fazer para conseguir a certificação?
Luiza: Nossa certificação considera 108 indicadores de sustentabilidade ambiental, social e econômica, incluindo a rastreabilidade. A certificação ocorre em três etapas, e o produtor vai se adequando gradativamente às exigências. No Brasil, a RTRS tem uma parceria com a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) que ajuda no processo de adequação aos indicadores. A RTRS tem a função de certificar produtores, mas nós também certificamos toda a cadeia de custódia. Isso inclui plantas de processamento, os portos que recebem a soja e alguns espaços onde o grão fica armazenado.
GR: O que impede o crescimento do número de fazendas certificadas no país? Existe alguma dificuldade?
Luiza: Brasil é um dos principais mercados de soja sustentável. Temos 308 produtores certificados, em uma lista com agricultores individuais, produtores que têm várias fazendas e certificação em grupo, quando grupos de produtores ou associações se juntam. Um dos desafios de expansão é a existência da data de corte do desmatamento zero; quem não está dentro disso, não consegue se certificar. Entre os gargalos estão ainda a dificuldade de comunicação, de fazer essa informação chegar ao produtor e o acesso a linhas de crédito que permitam ao produtor fazer as mudanças necessárias na fazenda. Também tem uma questão cultural. Tradicionalmente, nós não somos um país que tem o costume de certificar tudo, diferentemente dos Estados Unidos.
GR: Como está o cenário de certificações para o milho?
Luiza: O milho representa um desafio um pouco maior, porque muitos produtores ainda não consideram esse mercado tão atraente. Isso acontece porque as indústrias ainda não sofrem tanta pressão para pagar mais pelo milho certificado, mais sustentável. Mas a gente tem trabalhado tanto com o produtor quanto com o consumidor. Hoje, temos 115 produtores com certificação para o milho, o que representa um crescimento anual de 274%. Desse total, 88 estão no Brasil. É a maior parte, o que mostra que o mer cado está ficando aquecido no país. Para o produtor, a ideia é oferecer a possibilidade de certificar o milho que é cultivado em rotação de cultura com a soja. Na ponta da demanda, vemos alguns sinais de aumento do interesse pelo milho RTRS, mas ainda há muito a se explorar. É um mercado com atores diferentes em relação ao mercado da soja, mas com grande potencial de crescimento.
"A demanda por milho certificado ainda não é tão grande quanto a da soja, mas esse é um mercado com grande potencial"
— Luiza Bruscato
GR: Como você, executiva à frente de uma entidade global, enxerga o espaço para as mulheres como lideranças do setor?
Luiza: Ainda temos muitos desafios nas questões de gênero, não somos maioria nos conselhos de administração de várias associações ou organizações, sejam internacionais ou do Brasil.No meu caso, uma executiva jovem, também existe o desafio de precisar demonstrar que tenho conhecimento e experiência que me tornam capaz de estar nessa posição. Mas, apesar de o agro ser um mercado bastante masculino, acho que há espaço para o crescimento das mulheres. A gente pode agregar positivamente no trabalho, na forma de se organizar, de se relacionar.
GR: De que forma você acredita que a gestão feminina agrega ao trabalho na sustentabilidade e na RTRS?
Luiza: A sustentabilidade passa por aspectos ambientais e sociais, além dos econômicos, mas a gente precisa lembrar que todo o trabalho é feito por pessoas e para pessoas. A gente tem um olhar mais humano. Eu também venho com esse olhar para a gestão da associação, de enxergar a estrutura de trabalho, centrar o foco em uma reorganização interna de tarefas, de habilidades. A missão passa por olhar para as habilidades das pessoas, para colocá-las em seu melhor serviço. Assim, elas também se motivam a trabalhar nesse lugar, podem sentir orgulho e também ser reconhecidas. Fui escolhida entre 50 pessoas do mundo inteiro, homens e mulheres. As últimas candidatas eram todas mulheres, o que mostra que a RTRS também estava atenta a esse aspecto, de ter mais mulheres na liderança. Nosso time é composto majoritariamente de mulheres. É muito bom poder contar com toda essa força feminina no time.

Comentários